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4 erros pedagógicos que estamos cometendo durante a pandemia

O presidente do Instituto Cultiva, ONG voltada à educação para a cidadania, Rudá Ricci, recentemente indicou quatro erros pedagógicos recorrentes no processo da educação a distância estabelecidos durante a pandemia. 

O especialista afirma que é necessário profissionalismo no ensino e que as respostas fáceis não são produtivas. É preciso repensar a educação e os modelos adequados para o período que estamos vivendo, compartilhando experiências que funcionaram neste contexto e construindo novas perspectivas para o futuro.

O primeiro erro trata sobre a transposição do módulo-aula. 

Ricci afirma que a aula de 50 minutos é uma pequena alteração das aulas de 40 minutos adotadas nos EUA, pensando numa educação voltada à formação para a indústria, por isso as disciplinas consideradas de maior relevância seriam aquelas relacionadas à produção industrial, como a matemática. A leitura seria apenas um complemento necessário para o cumprimento desta normativa. Ou seja, o módulo-aula não tem nenhuma relação com aspectos pedagógicos.

“Se tivesse alguma relação com a estrutura mental, o módulo aula teria 20 minutos, tempo máximo de concentração de crianças e adolescentes”.

Isso implica na desqualificação da transposição desse modelo para o ensino remoto ou EAD durante a pandemia, quando outros fatores ainda devem ser considerados. A capacidade de concentração durante esse período de incertezas está ainda mais reduzida, o que inviabiliza a transposição bem-sucedida deste modelo.

A sugestão do especialista é que cada plano de aula deveria fazer uso de uma pedagogia de projetos, onde os alunos seriam instigados a organizar seu tempo, realizar pesquisas para solucionar problemas ou situações-problema.

O acompanhamento poderia configurar-se por meio de “dicas” que poderiam ser transmitidas por diferentes meios de comunicação (nos casos envolvendo a dificuldade de acesso à internet ou televisão, o rádio poderia ser uma alternativa para garantir o acesso de todos). 

Este modelo baseado em projetos pode ser aplicado em qualquer realidade, com a entrega de um “problema” inicial que precisa ser trabalhado pelo aluno na busca de respostas que façam frente a demanda proposta. Trata-se de uma educação construtivista.

Segundo erro: desconsiderar a interatividade típica das novas tecnologias de comunicação.

A interatividade pode ser considerada o aspecto mais significativo do uso das novas tecnologias para a educação de crianças e adolescentes. Para visualizarmos isso basta observarmos a troca de mensagens em redes sociais. A interação possibilita a formação de opinião e a troca de impressões, afirma Ricci. 

O que está acontecendo é que as plataformas estão sendo utilizadas de forma verticalizada, onde o comando pedagógico tem um objetivo passivo de recebimento, suprimindo aquilo que de melhor as novas tecnologias podem oferecer. 

Quando a EAD era realizada por outros meios – como televisão ou, antes ainda, pelo correio – a possibilidade de interação era limitada ou quase inexistente. Hoje, com ferramentas que possibilitam o desenvolvimento de uma educação baseada na troca, permanecemos indiferentes e utilizando modelos já superados de aprendizagem.

“O módulo-aula e o pobre uso das plataformas empregadas para o ensino remoto são irmãos siameses: fazem uma mera transposição das aulas presenciais para o ensino remoto.”

Terceiro erro: foco nos resultados negligenciando o desequilíbrio emocional dos alunos.

Ricci cita uma pesquisa realizada com 33 mil jovens indicando que 30% deles não sabem se voltarão para as aulas presenciais no futuro. Uma parcela destes que apresentam incertezas quando ao retorno às salas de aula afirmaram que esperavam mais apoio emocional nesse momento em que suas famílias perdem renda e o vírus é uma ameaça permanente. 

O que fazem as escolas? Despejam atividades sem parar, numa sequência desumana. Erramos por ansiedade pedagógica. Esquecemos de entender, antes, as condições concretas de estudo de nossos alunos. Saltamos do mundo real para a construção idealizada de uma aula normal em meio ao caos.”

A prioridade, de acordo com o especialista, deveria ser a criação de espaços de conversa entre os alunos para o compartilhamento de dúvidas e angústias. 

Quarto erro pedagógico: acreditar que existe uma enorme distância entre educação e desenvolvimento social.

Quando o foco está nas avaliações externas e em números, esquecemos que a educação é baseada em relações humanas. Desta forma, as particularidades de cada aluno influenciam em seu processo de aprendizagem. A dificuldade em manter um aluno quando existe desequilíbrio familiar, seja por falta de renda ou adoecimento, é muito grande. 

“Nessa ansiedade da ‘sociedade do desempenho’, o Brasil se esqueceu da função da educação e da pedagogia. A formação de nossos alunos não se dá somente pela escola. A formação formal concorre – ou se associa – com a formação familiar, principalmente em período pandêmico.”

Gestores educacionais nem sempre levam em conta o impacto e a necessidade de trabalhar estratégias educacionais vinculadas à políticas de desenvolvimento social – que são fundamentais em períodos de crise.

A educação é, com toda a certeza, um elemento fundamental para crianças e adolescentes. Por essa razão ela deve ser discutida e formulada a partir também de trocas e da consideração dos diferentes fatores que podem influenciar para o sucesso ou insucesso dos objetivos propostos.

É preciso que instituições de ensino, educadores e pesquisadores busquem juntos por respostas que ultrapassem o simplismo e a mera transposição  sala de aula-casa. Isso porque meio e contexto são outros e se o objetivo for ensinar é preciso considerar estes aspectos. A formação deve adequar-se a esta nova configuração.